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O ano do simulador do Meu INSS vem só do CNIS

A tela ignora tempo rural, tempo especial e vínculo fora do cadastro. Com eles, a aposentadoria de 2030 pode sair em 2026.

Carteira de trabalho antiga aberta sobre uma mesa.

O simulador soma só o que está no CNIS

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O simulador do Meu INSS só soma o que está no CNIS. Em setembro, ele somou 21 anos e quatro meses para Maria das Graças Pereira, que trabalha desde os 14.

Maria é uma personagem montada para esta edição, com as regras oficiais do INSS. Tem 58 anos, mora em Feira de Santana, na Bahia, e hoje cuida de idosos como autônoma, pagando o carnê do INSS todo mês.

Ela abriu o simulador numa noite de domingo, no celular, com a senha gov.br. Queria saber quanto faltava. A tela respondeu com um ano em destaque: 2030, quando ela terá 62.

Maria leu o número duas vezes e fechou o aplicativo. Contou para a irmã, Lúcia, que ia trabalhar mais quatro anos cuidando de idosos, porque o governo tinha dito.

Lúcia pediu para ver a tela. Embaixo do resultado, em letra menor, o próprio simulador trazia um aviso: o cálculo usa apenas os dados do CNIS (o Cadastro Nacional de Informações Sociais, o registro de vínculos e salários de cada trabalhador) e não considera tempo rural, tempo especial nem vínculos ausentes do cadastro.

Maria tinha os três. Dos 14 aos 21 anos, plantou feijão e mandioca com os pais num sítio em Santo Estêvão, sem carteira e sem carnê.

Depois, passou 17 anos como auxiliar de enfermagem num hospital, trocando curativo e lidando com sangue e secreção todo dia. Em seguida, quatro anos numa clínica particular, na mesma função e com carteira assinada.

A clínica fechou em 2011. A carteira de trabalho guarda o registro, com carimbo e assinatura, mas o vínculo nunca chegou ao CNIS, porque a empresa deixou de informar os dados ao governo.

O simulador trabalhou com o que tinha: o hospital e os anos de carnê como cuidadora. Sete anos de roça, quatro de clínica e o adicional do trabalho insalubre sumiram do cálculo, e o ano em destaque não dá sinal da ausência.

A primeira faixa mostra o que o simulador lê, o que ele ignora e onde mora o aviso que Maria pulou.

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I  O que muda pra você

O que o simulador não enxerga

O simulador fica no Meu INSS, no serviço Simular Aposentadoria. Ele puxa os vínculos e as contribuições registrados no CNIS, aplica as regras da Reforma da Previdência de 2019 e devolve, regra por regra, o dia em que o segurado completaria os requisitos.

O CNIS se alimenta do que empregadores e o próprio segurado informam. A empresa manda os dados dos empregados todo mês pelo eSocial (o sistema federal de folha de pagamento), e quem paga carnê aparece pelas guias recolhidas. O que ninguém informou não existe para o sistema.

Três tipos de tempo costumam faltar. O rural anterior a novembro de 1991, trabalhado em regime de economia familiar (a família toda na lavoura, sem patrão), conta como tempo de contribuição, mas precisa ser provado em pedido próprio.

O tempo especial (trabalho exposto a agente nocivo à saúde, como barulho acima do limite, produto químico ou material biológico) também some. Até 13 de novembro de 2019, cada ano especial de mulher vale 1,2 ano comum, e cada ano de homem vale 1,4. O simulador lê o período, mas sem o adicional.

O terceiro é o vínculo que nunca entrou no cadastro: empresa que fechou, que não informou, ou registro antigo anotado só na carteira de papel, de antes da informatização.

O ano do simulador é uma estimativa feita só com o CNIS; tempo provado por documento pode antecipar a aposentadoria em anos.

O aviso existe e está escrito na tela de resultado, abaixo das regras. O ano aparece grande, em destaque, e muita gente para ali, como Maria parou.

Há ainda as pendências. Um vínculo marcado com sigla de pendência no extrato, por data informada fora do prazo ou salário sem comprovação, pode entrar pela metade no cálculo, ou nem entrar, até o segurado provar o período.

Para enxergar o que o simulador usou, o caminho é o extrato do CNIS, no próprio Meu INSS, em Extrato de Contribuição. Ele lista os vínculos com início, fim e salários mês a mês, e sai em PDF.

Maria baixou o extrato na segunda-feira. Encontrou o hospital, de 1990 a 2007, e o carnê de cuidadora, pago desde 2022. Nenhuma linha para a clínica, nenhuma para o sítio.

Os buracos tinham explicação. A roça não gera contribuição, a clínica não informou, e o hospital aparecia como trabalho comum, porque o cadastro não registra que ela lidava com material biológico.

Corrigir o cadastro antes de pedir a aposentadoria evita que o INSS repita o erro do simulador na concessão. O próprio INSS analisa os documentos, acerta o CNIS e só então recalcula as datas.

 
 

II  Régua da Transição

De 2030 para agora

A Reforma da Previdência, a Emenda Constitucional 103, de 2019, criou regras de transição para quem já contribuía antes dela. Para mulheres, em 2026, valem três:

1. Pontos: idade mais tempo de contribuição somando 93, com pelo menos 30 anos de contribuição.

2. Idade mínima progressiva: 59 anos e seis meses, com 30 anos de contribuição.

3. Pedágio de 100%: 57 anos, 30 anos de contribuição e o dobro do tempo que faltava em novembro de 2019.

Com 21 anos e quatro meses no CNIS, Maria não cumpre nenhuma delas. Sobra a regra por idade, que pede 62 anos e 15 de contribuição para mulher. Daí veio o 2030 da tela, com benefício de 72% da média salarial.

O percentual sai de uma regra fixa: 60% da média, mais dois pontos por ano de contribuição acima de 15 anos, no caso das mulheres. Seis anos acima de 15 dão os 12 pontos extras.

Lúcia sentou com a irmã e somou o tempo que o cadastro ignora:

• No CNIS: 21 anos e quatro meses.

• Roça, de 1982 a 1989: sete anos.

• Clínica, de 2008 a 2011: quatro anos.

• Adicional dos 21 anos especiais: quatro anos e dois meses.

• Total: 36 anos e seis meses.

Maria tem 58 anos e sete meses. Somada ao tempo total, a idade chega a 95 pontos, acima dos 93 exigidos em 2026.

Com o tempo provado, Maria passa dos 93 pontos exigidos em 2026 e pode pedir a aposentadoria agora, sem esperar 2030.

A roça entra na soma mesmo sem nenhum carnê pago, por regra escrita na lei de benefícios:

“O tempo de serviço do segurado trabalhador rural, anterior à data de início de vigência desta Lei, será computado independentemente do recolhimento das contribuições a ele correspondentes, exceto para efeito de carência, conforme dispuser o Regulamento.”

Lei 8.213, artigo 55, parágrafo 2º, 1991

Carência (o número mínimo de meses pagos) Maria já tinha: são 180 meses, e só o hospital somou 204.

Cada pedaço pede prova. Para a roça, Maria preencheu a autodeclaração do segurado especial rural e juntou a certidão de casamento dos pais, onde o pai aparece como lavrador, e a ficha dela no sindicato rural de Santo Estêvão, de 1986.

Para a clínica, juntou a carteira de trabalho e os recibos de salário guardados numa pasta. Para o tempo especial do hospital, pediu o PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário, o formulário em que a empresa descreve os agentes nocivos do posto).

A clínica fechou e não deixou PPP. O adicional daqueles quatro anos depende de outra prova e pode ser negado. Sem ele, o total cai para 35 anos e oito meses, e a soma ainda passa de 94 pontos.

O pedido entrou pelo Meu INSS em outubro, com todos os documentos anexados. O acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 dá ao INSS 90 dias para decidir pedidos de aposentadoria.

O resultado ainda não saiu, e só a análise dirá quanto do tempo o INSS aceita. Se aprovar, o benefício conta desde a data do pedido, com os atrasados num pagamento único, e com mais de 36 anos o percentual passa de 100% da média.

 

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III  Fato ou Golpe

Ninguém vende tempo de roça

O ano errado do simulador virou porta de entrada para golpe. O golpista sabe que o segurado se assustou com a tela e oferece solução rápida por mensagem, com prazo curto.

Fato: corrigir o CNIS e pedir a contagem de tempo rural ou especial no Meu INSS não custa nada.

Golpe: a mensagem que fala em CNIS “bloqueado” ou “com erro grave” e cobra Pix para liberar a correção em 24 horas. O INSS não manda mensagem cobrando para acertar cadastro.

Fato: o acerto do cadastro sai pelo Meu INSS, pelo telefone 135 ou numa agência, feito pelo próprio segurado ou por um procurador cadastrado no INSS.

Golpe: o aplicativo de simulação que promete o “valor exato” da aposentadoria e pede a senha gov.br. Com a senha, o golpista entra no Meu INSS e abre pedidos ou altera dados em nome do segurado.

Fato: o simulador oficial fica dentro do Meu INSS, em endereço terminado em gov.br, e não pede pagamento nem senha extra.

Golpe: a declaração rural pronta, vendida por terceiros, com sindicato e testemunhas inventados. Declaração falsa é crime de falsidade ideológica, previsto no artigo 299 do Código Penal, e o benefício concedido com ela é cortado e cobrado de volta.

Fato: advogado e contador podem cobrar pelo planejamento previdenciário, e o serviço é legal. O profissional sério tem registro na OAB ou no conselho, contrato escrito, e não pede a senha gov.br por mensagem.

Golpe: o falso servidor que liga dizendo que o tempo rural “vence” se não for averbado (registrado oficialmente no cadastro) até o fim do mês. Tempo trabalhado não perde a validade, e a pressa serve só para tirar o segurado do raciocínio.

Maria recebeu uma dessas ofertas. Uma semana depois de abrir o simulador, um número desconhecido mandou no WhatsApp a proposta de antecipar a aposentadoria por R$ 350, pagos adiantado.

Lúcia respondeu pedindo o número de registro na OAB. A conversa parou ali, e Maria bloqueou o contato antes de mandar qualquer documento.

O pedido verdadeiro, feito pelas duas no celular, custou só o tempo de juntar papel: certidão, ficha do sindicato, carteira, recibos e o PPP do hospital.

“Quantos anos do seu trabalho não aparecem no seu CNIS?”

Confira no extrato do CNIS hoje:

1. O ano do primeiro vínculo listado.

2. O emprego da carteira sem linha no extrato.

3. O período insalubre sem PPP guardado.

 
 
Quiz da edição

No texto, até 13 de novembro de 2019, quanto vale cada ano de tempo especial trabalhado por uma mulher no cálculo da aposentadoria?

A1,4 ano comum
B1,2 ano comum
C2 anos comuns
D1 ano comum, sem acréscimo

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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